No Lobito, as Irmãs Oblatas acolhem mulheres em contexto vulnerabilidade social com uma convicção: prevenir o cancro da mama exige, antes de tudo, cuidar da saúde mental e devolver a essas mulheres o direito de olhar para si mesmas.

O Outubro Rosa chegou ao bairro da Caponte, no Lobito (Benguela), não como uma campanha externa, mas como continuidade de um trabalho que o Centro Social Renascer das Irmãs Oblatas do Santíssimo Redentor realiza há mais de duas décadas junto a mulheres afectadas pelo fenómeno da prostituição.

Em outubro, a equipa do Centro promoveu encontros que, lidos em conjunto, revelam uma metodologia: para falar de prevenção do cancro da mama com mulheres em situação de vulnerabilidade social, é preciso começar pelas emoções, passar pela informação em saúde e chegar ao corpo em movimento.

Um diagnóstico que chega tarde

A urgência deste trabalho tem números. Em Angola, o cancro da mama é o tipo mais frequente entre as mulheres. Segundo o GLOBOCAN 2024, da Agência Internacional de Investigação sobre o Cancro (IARC/OMS), foram registados 4.614 novos casos e 2.139 mortes pela doença no país em 2024.

Os dados do Ministério da Saúde de Angola confirmam a tendência de subida. Em 2024 foram contabilizados 531 casos; em 2025, 554 novos casos até à data de divulgação. Apenas no primeiro semestre de 2026, mais de 200 novos casos foram registados pelo Instituto Nacional de Luta Contra o Cancro. Um dado particularmente duro: entre janeiro e setembro de 2025, cerca de um terço dos casos diagnosticados resultou em óbito, sobretudo por diagnóstico tardio.

A maioria dos casos continua a ocorrer em mulheres a partir dos 40 anos, mas há um aumento preocupante em mulheres jovens, a partir dos 20. A falta de um registo oncológico populacional dificulta a medição da real dimensão do problema, e a escassez de recursos para diagnóstico e tratamento faz com que muitas mulheres cheguem ao hospital já numa fase avançada da doença.

É neste cenário que o trabalho de base ganha peso. Para mulheres que vivem da prostituição e enfrentam estigma, pobreza e violência, o auto-exame e a mamografia não são gestos automáticos, são conquistas.

Informar e sensibilizar: um mesmo fio condutor

A programação do Outubro Rosa no Projeto Oblata de Lobito, Centro Social Renascer, foi construída como uma escada, e não como eventos isolados.

6 de outubro: começar pelas emoções

A abertura trouxe a reflexão “Como lidar com as emoções e sentimentos para prevenir a saúde mental”. A mensagem central foi clara: reconhecer o que se sente é o primeiro passo para cuidar de si, e pedir ajuda não é sinal de fraqueza, mas de coragem. “Prevenir é acolher, escutar e agir antes que a dor se torne silêncio”, registou a equipa.

13 de outubro: informação que protege

Com a Dra. Sara Lopes, médica da Clínica Medicrisal do Lobito, as mulheres participaram numa sessão de sensibilização sobre Mpox e cólera: formas de transmissão, cuidados de higiene, sinais de alerta e medidas de prevenção. A escolha do tema não é casual. Em contextos de precariedade sanitária, a informação é ferramenta de protecção colectiva e individual.

20 de outubro: o corpo em movimento

A actividade de exercício físico fechou o ciclo, associando movimento a saúde mental e bem-estar emocional. Mais do que movimentar o corpo, a proposta foi aliviar o stress, melhorar o humor, fortalecer a autoestima e criar laços de convivência. Para mulheres em vulnerabilidade, cuidar da saúde mental é também recuperar a confiança e a esperança.

Uma mulher que não se sente digna não procura o hospital. Uma mulher que não reconhece o próprio sofrimento não identifica um nódulo. A saúde mental, neste sentido, é uma porta de entrada para a saúde física, e não um tema paralelo.

A lógica adoptada pelo Centro Social Renascer é a da pedagogia do cuidado que sustenta a missão oblata. Antes de falar de rastreio e prevenção do cancro da mama, é preciso restituir a estas mulheres algo que a rua, o estigma e a violência retiram sistematicamente: a percepção de que a sua vida vale ser cuidada.

A prevenção do cancro da mama passa pela educação em saúde, pelo acesso a exames e pelo combate ao estigma. Mas passa, sobretudo, pela reconstrução da autoestima de mulheres que aprenderam a não se priorizar.

Uma missão, muitas vidas transformadas

As Irmãs Oblatas chegaram a Angola em 1995, dando início ao Programa de Compromisso Solidário com a Mulher Afectada pelo Fenómeno da Prostituição, em Luanda. A presença no Lobito consolidou-se a partir do ano 2000, e desde 2004 o Centro Social Renascer ocupa a sua sede própria no bairro do Caponte. Em 2007, realizou a primeira formatura profissional com reconhecimento do INEFOP. Em 2018, recebeu Menção Honrosa da Administração Municipal do Lobito.

Acompanhe o trabalho do Centro Social Renascer e apoie esta causa.


Sobre o Centro Social Renascer

O Centro Social Renascer, das Irmãs Oblatas do Santíssimo Redentor, actua no Lobito (Benguela, Angola) no acolhimento, acompanhamento, formação e inserção laboral de mulheres em contexto de prostituição e vulnerabilidade social, com um compromisso solidário na defesa da dignidade e dos direitos das mulheres.

Fontes

GLOBOCAN 2024, Agência Internacional de Investigação sobre o Cancro (IARC/OMS); Ministério da Saúde de Angola; Instituto Nacional de Luta Contra o Cancro (INLCC); publicações oficiais do Centro Social Renascer das Irmãs Oblatas do Santíssimo Redentor (Oblatas Lobito Renascer – Facebook).