Enquanto milhões de pessoas acompanham com entusiasmo a Copa do Mundo da FIFA 2026 — a edição com mais jogos e mais cidades-sede da história do torneio, disputada entre Estados Unidos, Canadá e México —, organizações internacionais de direitos humanos alertam sobre uma série de realidades que costumam ficar fora das manchetes: o tráfico de pessoas, a discriminação contra a comunidade LGBTQIA+ e a aplicação abusiva da legislação migratória e do controle de fronteiras.

Os grandes eventos esportivos como cenários de maior vulnerabilidade para o tráfico de pessoas
A rede internacional Talitha Kum, dedicada à prevenção e ao combate ao tráfico de pessoas, alertou que a dimensão inédita do Mundial — que se desenvolve nos Estados Unidos, Canadá e México, com 104 jogos em 16 cidades — aumenta significativamente os fatores de risco para diversas formas de exploração.
Segundo a organização, a preparação e a realização de um evento dessa escala geram uma enorme demanda por mão de obra em setores como construção, hotelaria, gastronomia, transporte, limpeza e logística. Essa necessidade pode resultar em situações de exploração trabalhista, especialmente para migrantes, refugiados e solicitantes de refúgio que buscam oportunidades de trabalho e acabam sendo aliciados por redes de tráfico.
Talitha Kum também adverte que, durante esse tipo de evento, costumam aumentar outras modalidades de exploração, entre elas a exploração sexual, favorecidas pelo aumento do turismo, da mobilidade internacional e da concentração massiva de pessoas. A rede insiste em que esses riscos não são inevitáveis, mas exigem ações coordenadas de prevenção, proteção e conscientização por parte de governos, organizações sociais, empresas e da sociedade.
O relatório da Anistia Internacional citado mais abaixo adverte, além disso, que embora o Departamento de Investigações de Segurança Nacional (HSI), vinculado ao ICE, venha intervindo há tempos em grandes eventos para combater o tráfico de pessoas e a exploração trabalhista, sua atuação tem se desviado para prisões e detenções, inclusive de vítimas de exploração.
Os direitos humanos devem estar no centro
As preocupações não se limitam ao tráfico de pessoas. A Anistia Internacional publicou o relatório A Humanidade Deve Vencer: Defender os direitos e enfrentar a repressão na Copa do Mundo da FIFA 2026, no qual aponta que um torneio dessas proporções deve garantir o respeito aos direitos humanos de todas as pessoas envolvidas: torcedores, trabalhadores, jornalistas, comunidades locais e pessoas migrantes.
A organização alerta sobre os riscos decorrentes de políticas migratórias restritivas, possíveis abusos contra trabalhadores, limitações à liberdade de expressão e de protesto, bem como o impacto que as obras de infraestrutura e as operações de segurança podem causar nas comunidades anfitriãs. Além disso, lembra que a responsabilidade de proteger os direitos humanos não cabe apenas aos Estados, mas também à FIFA e ao conjunto de atores que participam da organização do torneio.
Também foram relatadas restrições à liberdade de expressão de torcedores e jogadores por meio de normas que proíbem mensagens e símbolos considerados “políticos”.
De acordo com o relatório da Anistia Internacional, nos Estados Unidos o governo intensificou ações contra jornalistas e veículos críticos, chegando a deportar um jornalista por fazer reportagens sobre as operações do ICE. No México, a imprensa continua enfrentando um contexto de extrema violência: o relatório documenta sete jornalistas assassinados em 2025, o que mantém o país como um dos mais perigosos para o exercício do jornalismo no Hemisfério Ocidental.
Os três países anfitriões também impuseram restrições ao direito de reunião pacífica. Nos Estados Unidos, foram tomadas medidas contra estudantes estrangeiros e manifestantes que protestavam contra a guerra em Gaza ou contra as políticas migratórias; a Anistia Internacional documenta a revogação de 8.000 vistos com base em sistemas de vigilância por inteligência artificial.
Quando o jogo termina, a violência continua
Quais protocolos existem para proteger quem faz denúncias durante esses eventos? É uma pergunta que continua atual, mesmo após o término da Copa. Enquanto milhões de pessoas comemoravam os jogos, organizações de mulheres alertavam para outro fenômeno: grandes eventos esportivos podem vir acompanhados de um aumento em situações de violência. Durante o Mundial, diversas organizações lançaram campanhas contra a violência e o tráfico de pessoas associados a eventos esportivos.
Estudos realizados no Brasil e na Inglaterra registraram aumentos de agressões e de denúncias de violência doméstica em dias de jogo. A explicação não está no esporte em si, mas em uma combinação de fatores que atuam como catalisadores de violências que já existiam: a frustração, o consumo de álcool, as dinâmicas de poder e uma cultura que ainda naturaliza determinadas formas de violência contra as mulheres.
O que tem sido feito para evitar isso?
Segundo aponta a Talitha Kum em sua análise sobre a Copa de 2026, a Alliance to End Human Trafficking (AEHT) publicou nos Estados Unidos um guia sobre o tráfico de pessoas em eventos esportivos e outros grandes acontecimentos. Esse recurso oferece a organizadores, parceiros e comunidades o conhecimento necessário para reconhecer os sinais de tráfico trabalhista e sexual e tomar providências.
Em edições anteriores de grandes torneios internacionais de futebol, a Anistia Internacional já havia solicitado aos Estados com risco de se tornarem países de origem de mulheres vítimas de tráfico que realizassem campanhas de conscientização para prevenção e proteção.
Neste ano, também foram reunidas conclusões e recomendações gerais sobre a defesa dos direitos humanos durante a Copa do Mundo:
- Garantir o direito à liberdade de expressão e de reunião pacífica dentro e fora dos locais do evento em todos os países anfitriões, evitando o uso de forças militares.
- Dar fim às operações indiscriminadas, ao perfilamento étnico, às prisões arbitrárias, às detenções em massa e às deportações ilegais nos EUA, garantindo publicamente que os eventos, locais do torneio e reuniões da Copa do Mundo não serão alvo de operações de imigração.
- Revogar as proibições discriminatórias de viagem impostas para a entrada nos EUA.
- Adotar medidas efetivas para garantir a proteção das pessoas LGBTQIA+ contra a discriminação, o assédio e os abusos, inclusive por meio de campanhas antidiscriminação e pela aplicação adequada do protocolo da FIFA.
- Garantir a publicação de planos de direitos humanos atualizados e fortalecidos pelas cidades-sede, incluindo proteções abrangentes para torcedores, jogadores, jornalistas, trabalhadores e comunidades locais.
O acompanhamento não espera pelas grandes manchetes
Na Fundación Serra-Schönthal, trabalhamos precisamente na realidade em que esses riscos se transformam em histórias de vida concretas.
Por meio dos projetos que apoiamos — projetos de vida e de acompanhamento em países como Colômbia, Itália, Angola e Filipinas —, sustentamos processos de recuperação, formação e autonomia para mulheres que vivenciaram situações de exploração, muitas delas ligadas à mobilidade forçada e aos mesmos contextos de vulnerabilidade descritos nesses relatórios.
Nosso trabalho não depende da ocorrência de um grande evento para lhe dar visibilidade: a prevenção e o acompanhamento são processos contínuos no tempo — antes, durante e depois que os refletores se apagam.

30 de julho: um compromisso que envolve a todos nós
A cada dia 30 de julho, o mundo marca o Dia Mundial contra o Tráfico de Pessoas, data promovida pelas Nações Unidas para dar visibilidade a uma das mais graves violações dos direitos humanos e incentivar ações de prevenção, proteção e acesso à justiça para as vítimas.
Nesse contexto, refletir sobre os riscos que podem surgir em grandes eventos esportivos é também uma oportunidade para fortalecer o compromisso coletivo. Informar-se, reconhecer as diferentes formas de exploração e promover o respeito pela dignidade humana são passos fundamentais para a construção de sociedades mais justas.
“Na Fundação Serra-Schönthal, renovamos nosso compromisso com a prevenção do tráfico de pessoas e com o acompanhamento de mulheres que vivenciaram situações de exploração, convictas de que apenas uma sociedade informada e engajada pode contribuir para erradicar este crime, bem como outras violações de direitos humanos.”
Perguntas Frequentes (FAQ)
Por que os grandes eventos esportivos aumentam o risco de tráfico de pessoas?
Porque geram uma demanda massiva por mão de obra nas áreas de construção, hotelaria, transporte e logística, o que pode levar à exploração trabalhista, especialmente de pessoas migrantes e solicitantes de refúgio. O aumento do turismo e a concentração massiva de pessoas também favorecem outras formas de exploração, como a sexual.
O que denuncia o relatório da Anistia Internacional sobre a Copa de 2026?
O relatório A Humanidade Deve Vencer documenta riscos decorrentes de políticas migratórias restritivas, abusos contra trabalhadores, limitações à liberdade de expressão e de protesto, além do impacto das obras de infraestrutura e das operações de segurança sobre as comunidades anfitriãs.
Quais medidas foram propostas para proteger os direitos humanos durante o Mundial?
Entre outras: garantir a liberdade de expressão e de reunião pacífica, pôr fim às operações policiais arbitrárias e prisões sem motivo, revogar proibições discriminatórias de viagem, proteger a população LGBTQIA+ e publicar planos de direitos humanos atualizados pelas cidades-sede.
O que faz a Fundação Serra-Schönthal no combate ao tráfico de pessoas?
Sustenta processos de acompanhamento, recuperação, formação e autonomia com mulheres que vivenciaram situações de exploração, em países como Colômbia, Itália, Angola e Filipinas, de forma contínua durante todo o ano — e não apenas durante grandes eventos.
Referências
Talitha Kum (2026). Copa Mundial de la FIFA 2026: mayores riesgos de trata de personas.
Amnistía Internacional (2026). La humanidad debe triunfar: Defender los derechos y abordar la represión en la Copa Mundial de la FIFA 2026.
https://www.amnesty.org/es/documents/ior10/0837/2026/es/
Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Estudo sobre violência doméstica e eventos futebolísticos.
Lancaster University (2014). World Cup: football is a risk factor for domestic violence.
Naciones Unidas. Día Mundial contra la Trata de Personas.