Nesta entrevista exclusiva, Fernanda Picinin compartilha reflexões profundas sobre o trabalho sexual como resposta compulsória em um sistema que nega dignidade e direitos a milhões de mulheres. Sua trajetória junto ao Projeto Antonia, unidade da Rede Oblata Brasil, revelou potências e vulnerabilidades silenciadas, e também caminhos para a transformação social.
O trabalho sexual é frequentemente discutido a partir de estigmas, moralismos ou idealizações que ignoram as vozes de quem o exerce. Fernanda Picinin Moreira, doutora em Serviço Social e mestra em Psicologia, escolheu trilhar outro caminho: escutar as mulheres em seus próprios termos. Com experiência como assistente social no Projeto Antonia (Rede Oblata São Paulo), e atualmente entre pesquisa e sala de aula, Fernanda articula cuidado e crítica social em suas análises, evidenciando como gênero, classe e raça estruturam as escolhas possíveis em uma sociedade capitalista, racista e heteropatriarcal.
Na entrevista a seguir, Picinin fala sobre a motivação de sua pesquisa, o sentido da “escolha” na prostituição, os impactos do silenciamento na saúde mental, e como políticas públicas e iniciativas sociais podem caminhar ao lado dessas mulheres, sem salvacionismos, mas com respeito e compromisso real com a transformação.
Nanda Soares | Rede Oblata: Fernanda, gostaria de iniciar esse diálogo trazendo à tona a sua motivação para esta pesquisa. O que te motivou a investigar o trabalho sexual em contextos de vulnerabilidade social a partir da perspectiva das próprias mulheres?
Fernanda Picinin: A escolha do tema da minha pesquisa está profundamente ligada à minha trajetória profissional, acadêmica e pessoal, aspectos que, na minha visão, são inseparáveis na formação de um sujeito. Em 2017, comecei a atuar como assistente social no Projeto Antonia, da Rede Oblata, na cidade de São Paulo. A experiência de trabalhar com mulheres em situação de prostituição, cuja coragem e histórias me marcaram profundamente, transformou minha maneira de compreender o mundo e reconstruiu minha percepção enquanto mulher.
Nesse contexto, percebi que a escuta das trajetórias dessas muheres, muitas vezes silenciadas ou estigmatizadas nos discursos oficiais e acadêmicos, me confrontou com a urgência de olhar para suas experiências a partir delas mesmas. Ouvi-las foi essencial para romper com visões moralizantes, vitimizantes ou reducionistas que muitas vezes predominam sobre esse tema.
Foi nesse processo que compreendi que uma pesquisa que não partisse da perspectiva dessas mulheres seguiria repetindo lógicas de apagamento. Escolher ouvir suas vozes e compreendê-las como sujeitos de saber foi, para mim, um posicionamento ético, político e metodológico. Como sempre transitei pelo espaço acadêmico com o olhar voltado à práxis profissional, a pesquisa surgiu como um caminho possível para aprofundar essas reflexões e tensionar as formas como a prostituição é tratada no campo do Serviço Social e das políticas públicas.
Nanda Soares | Rede Oblata: Como a sua abordagem de pesquisa ajudou a compreender o fenômeno da prostituição como uma questão estrutural, e não individual?
Fernanda Picinin: A ideia da pesquisa surgiu a partir da escuta atenta às mulheres que, no cotidiano do projeto, traziam diversas demandas relacionadas à dificuldade de acesso a direitos e políticas públicas, como saúde, assistência social, educação, habitação, trabalho e renda. Eram, em sua maioria, mulheres chefes de família, com trajetórias marcadas por diferentes experiências de trabalho, que encontraram na prostituição uma forma de garantir sua sobrevivência. Para elas, a prostituição era compreendida como um trabalho possível em um contexto de crescente escassez e precarização das condições de emprego e renda.
Essa realidade me levou a refletir sobre o sentido da “escolha” nesse cenário. Afinal, podemos falar em escolha quando não há outras possibilidades concretas? Para muitas dessas mulheres, estar na prostituição não era uma decisão livre, mas sim uma alternativa viável diante da ausência de outras opções.
Essas situações não eram pontuais, mas cada vez mais frequentes, revelando de forma contundente a ausência do Estado na garantia de condições mínimas de vida e dignidade. Onde o Estado se omite e as políticas públicas falham, a precariedade se impõe como caminho de sobrevivência.
NS | Rede Oblata: Nos relatos da Pagu e da Maria, no decorrer do seu texto, existe uma comparação constante entre o trabalho formal e o trabalho sexual. Como essa comparação revela a precariedade do mercado de trabalho para mulheres pobres? E como isso se relaciona com a feminização da pobreza?
Fernanda Picinin: Discutir a precarização do trabalho das mulheres exige uma leitura ampliada do contexto econômico e político atual, marcado pela hegemonia das propostas neoliberais. Essas propostas priorizam a estabilização monetária, com a adoção de altas taxas de juros para atrair investimentos estrangeiros. No entanto, essa estratégia tem produzido efeitos devastadores para a classe trabalhadora, resultando no aumento do desemprego e na expansão de formas precárias de contratação.
Nesse cenário, a classe trabalhadora enfrenta intensa instabilidade e luta pela sobrevivência diante da crescente precariedade. No Brasil, onde a superexploração e a precarização do trabalho já são marcas estruturais, essas condições se aprofundam, evidenciadas pela exclusão social, pela intensificação das jornadas e pelo avanço da informalidade como alternativa de subsistência. Essa é parte da configuração atual da classe trabalhadora, da qual entendo que a prostituição também faz parte.
Além disso, é fundamental considerar como as desigualdades de gênero e raça atravessam esse processo de exploração. A feminização do mercado de trabalho tem exposto as mulheres a condições ainda mais precárias: salários mais baixos, contratos parciais, subempregos e altos índices de desemprego. No mundo todo, as mulheres continuam sendo maioria nas posições mais vulneráveis. O capital se apropria dessas desigualdades, expandindo os mecanismos de opressão e intensificando a exploração do trabalho feminino.
No contexto neoliberal, observa-se ainda o fortalecimento do familismo, que tem como uma das características a naturalização do papel das mulheres como principais responsáveis pelo cuidado. Esse discurso desloca responsabilidades do Estado para o âmbito privado, isentando-o da provisão de direitos e políticas públicas. Como resultado, há um aprofundamento das desigualdades, sobrecarregando especialmente as mulheres mais pobres — em especial as mulheres negras — que acumulam o trabalho doméstico não remunerado com inserções precárias no mercado de trabalho.
NS | Rede Oblata: Você afirma que a prostituição pode ser uma “resposta compulsória”. O que se pode dizer sobre a ideia de escolha e autonomia quando falamos de mulheres em situação de pobreza, ou em contexto de vulnerabilidade social?
Fernanda Picinin: A partir de pesquisas sobre a venda do sexo dentro do universo de trabalhos feminizados, podemos concluir que o trabalho sexual é visto por mulheres trabalhadoras sexuais de maneira mais favorável em comparação com outros trabalhos considerados feminizados, como o trabalho doméstico e de serviço por exemplo. Grande parte das mulheres entrevistadas nas pesquisas apontam para o trabalho sexual como uma possibilidade para a saída de outras relações de trabalho que são entendidas como mais opressivas, mais violentas e mais objetificantes.
Além disso, para a maioria das pessoas que o exerce, ele dificilmente constitui uma vocação; trata-se, antes, de uma posição transitória dentro de uma economia tripartida de estratégias de sobrevivência, organizada em torno da prostituição, do casamento e de empregos de baixo prestígio social e baixa remuneração, majoritariamente feminizados. Esse modelo destaca como o trabalho das mulheres é estruturado dentro do capitalismo não como uma escolha livre, mas como opções limitadas e condicionadas por relações de classe, gênero e raça.
A prostituição, nesse sentido, não é analisada isoladamente, mas como parte de um conjunto de alternativas disponíveis para a sobrevivência de mulheres em contextos de exploração econômica. Nas pesquisas apresentadas pelos autores com os quais eu dialogo, a grande maioria das trabalhadoras sexuais não tem a prostituição considerada como o pior tipo de trabalho. Pelo contrário: muitas vezes, ela surge como uma alternativa que possibilita a saída de outras formas de ocupação percebidas como mais violentas, mais opressivas e mais objetificantes.
NS | Rede Oblata: Muitas mulheres ocultam sua atividade por medo do julgamento social. Como esse silenciamento impacta a saúde mental e as relações afetivas dessas mulheres?
Fernanda Picinin: A prostituição está inserida em um conjunto de relações sociais que passaram, e continuam passando, por diversas transformações. Além disso, trata-se de uma construção simbólica, carregada, no contexto ocidental, de um valor predominantemente negativo. Ao revisitarmos a história, é possível perceber como o controle moral sobre as mulheres envolvidas com a prostituição sempre foi uma preocupação social marcante.
O que gerava a condenação moral da prostituição não era apenas o fato de haver remuneração pelo sexo, mas, sobretudo, a transgressão de normas sociais ligadas à sexualidade feminina. A relação com múltiplos parceiros e o exercício da sexualidade desvinculado da procriação desafiavam o ideal de mulher honesta e submissa, levando à associação da prostituição com práticas depravadas e à ideia de um corpo moralmente doente. Assim, as mulheres que a exerciam eram estigmatizadas como depravadas, primitivas, insanas, marcadas por uma série de rótulos desumanizadores.
Esse estigma permanece até hoje, funcionando como um mecanismo de controle social reproduzido, muitas vezes, por homens e mulheres. Ele atinge não apenas as trabalhadoras sexuais, mas todas as mulheres que não se encaixam no modelo de comportamento considerado socialmente «adequado». No caso específico das mulheres que atuam na prostituição, o preconceito é ainda mais violento, forçando muitas a levar uma vida dupla, escondendo sua atividade por medo do julgamento e das consequências.
Esse estigma é atravessado por marcadores de classe e território. Em comunidades periféricas, por exemplo, a prostituição é muitas vezes vivida como uma realidade “paralela” — todos sabem que ela existe, mas ninguém fala sobre ela. Já o olhar da classe média tende a ser fortemente moralista, desumanizando essas mulheres e negando-lhes reconhecimento social.
Esse silenciamento, aliado ao isolamento imposto pelo estigma, tem impactos profundos sobre a saúde mental das trabalhadoras sexuais. Muitas vezes, elas não compartilham dos cenários que revelam uma sobrecarga física e mental intensa, violências e desafios vividos no cotidiano e também não se sentem seguras para reivindicar direitos no espaço público. O silêncio, nesse contexto, torna-se mais uma forma de violência.
Outro ponto relevante é o impacto do trabalho sexual na relação das mulheres com seus corpos. O trabalho com o corpo é central, mas, paradoxalmente, o desgaste emocional e físico pode levar à sensação de alienação em relação a ele. Essa condição pode agravar questões de saúde mental e bem-estar, especialmente quando o trabalho é desempenhado em contextos de extrema necessidade, onde não há espaço para cuidado ou descanso.
NS | Rede Oblata: Quais os riscos de políticas públicas ou discursos sociais que romantizam ou criminalizam a prostituição sem ouvir as vozes das mulheres que a exercem?
Fernanda Picinin: Políticas públicas e discursos sociais que romantizam ou criminalizam a prostituição sem ouvir as vozes das mulheres que a exercem correm o grave risco de reforçar violências, silenciamentos e estigmas, ao invés de enfrentar as reais condições de vida dessas mulheres. Tanto a romantização quanto a criminalização operam como formas distintas de negação da complexidade que envolve o exercício da prostituição, ignorando os contextos de desigualdade social, de gênero e de raça que atravessam essa realidade.
A romantização tende a invisibilizar as violências, a precarização e a ausência de direitos que muitas mulheres enfrentam no cotidiano do trabalho sexual, transformando suas trajetórias em narrativas de “empoderamento” individual descoladas das condições materiais. Já a criminalização, por outro lado, intensifica o estigma, empurra essas mulheres para a clandestinidade e amplia sua vulnerabilidade, dificultando ainda mais o acesso a direitos básicos como saúde, segurança e justiça.
Um exemplo recente foi publicado no perfil do Instagram da Revista Marie Claire, que buscou mostrar o cotidiano de uma mulher que atua como prostituta por meio de uma plataforma online. Apesar da importância de dar visibilidade à realidade dessas mulheres, a matéria corre o risco de apresentar uma imagem idealizada do trabalho sexual, como se fosse uma escolha sempre autônoma, lucrativa e prazerosa, desconsiderando os atravessamentos de classe, raça, desigualdades estruturais, violências e a falta de garantias de direitos que marcam grande parte das experiências no contexto da prostituição.
Considero ser fundamental escutar essas mulheres, em suas múltiplas vozes e experiências, para construir políticas públicas e debates sociais que levem em conta suas reais condições de vida, suas demandas e seus direitos. Só com escuta qualificada e diálogo é possível romper com o ciclo de preconceito, isolamento e violência simbólica que historicamente recai sobre elas.
NS | Rede Oblata: Sua pesquisa mostra como gênero, classe e raça se entrelaçam na «prostituição de baixa renda». Como garantir que políticas públicas e ações da sociedade civil – como as realizadas pela Rede Oblata – enfrentem essas desigualdades estruturais de forma interseccional e não moralista?
Fernanda Picinin: Garantir que políticas públicas e ações da sociedade civil – como as desenvolvidas pela Rede Oblata – enfrentem de forma imbricada e não moralista as desigualdades que atravessam a prostituição de mulheres de baixa renda exige, antes de tudo, o reconhecimento de que estamos lidando com uma realidade atravessada por múltiplas opressões: de classe, de gênero e de raça. Uma abordagem imbricada pressupõe compreender que essas desigualdades não atuam de forma isolada, mas se sobrepõem e se reforçam mutuamente. Assim, é necessário que as políticas e ações passem a reconhecer as experiências concretas das mulheres que estão nesse contexto. Isso implica escutá-las, envolvê-las na construção das propostas e reconhecer sua autonomia, mesmo quando suas escolhas escapam às expectativas morais ou religiosas predominantes.
No caso específico de ações vinculadas a ações da sociedade civil, como é o caso da Rede Oblata, isso exige uma atuação que vá além da caridade ou da tentativa de “salvar” essas mulheres, e que se oriente pelo respeito, pela escuta ética e pelo compromisso com os direitos humanos. Ao ouvi-las passamos a compreender que o trabalho na prostituição não parte de um desvio moral, mas como uma forma de sobrevivência num contexto de extrema precarização das condições de vida, onde o acesso ao trabalho, à moradia, à educação, à saúde e à proteção social é negado sistematicamente a mulheres, principalmente às pobres, negras e periféricas. Políticas públicas e ações sociais precisam, portanto, articular estratégias que enfrentem a desigualdade estrutural, garantindo acesso a direitos, escuta qualificada, proteção social e possibilidade real de escolha.
Por fim, é fundamental que essas iniciativas se abram ao diálogo com os movimentos feministas, com a academia e, principalmente, com as próprias mulheres que exercem o trabalho sexual, sem falar por elas, mas construindo caminhos com elas.
NS | Rede Oblata: Quais estratégias de sobrevivência mais te chamaram a atenção nas trajetórias das entrevistadas?
Fernanda Picinin: As mulheres entrevistadas na pesquisa, assim como aquelas que conheci durante minha atuação como assistente social no Projeto Antonia, me fizeram refletir sobre como a prostituição se insere em um espaço ambíguo: marcado, de um lado, por negação de direitos e violências; de outro, por estratégias potentes de sobrevivência frente às ausências do Estado. Suas narrativas revelam como a prostituição surge não apenas como resposta às desigualdades sociais e econômicas, mas também como espaço de alguma autonomia e possibilidade de sobrevivência no cotidiano.
Maria e Pagu compartilham, em suas histórias, esse movimento. Ambas recorreram à prostituição em momentos de necessidade, por enxergarem nela uma possibilidade concreta de sustento diante da falta de perspectivas em outras formas de trabalho. Maria, hoje com 29 anos, começou aos 23; Pagu, com 34, iniciou aos 19. As duas cursaram o ensino médio e chegaram a ingressar no ensino superior, acreditando que isso ampliaria suas oportunidades, mas ainda têm na prostituição sua principal fonte de renda.
As trajetórias de vida de ambas estão profundamente atravessadas por desigualdades. Pagu relata uma infância marcada por abandono e violência, e associa sua entrada na prostituição à busca por emancipação e autonomia diante de uma história familiar de exploração.
Maria, por sua vez, aponta as dificuldades materiais mais imediatas como fator decisivo, destacando a insuficiência do salário-mínimo para garantir o básico:
“Eu vou procurar um trabalho, quanto que está o salário-mínimo? (…) Aí quem paga aluguel? Água, luz, internet… Tem comida, que é uma das partes mais caras junto com o aluguel. Então, tipo, não dá, não dá, e às vezes falta porque a conta não fecha”.
Embora nenhuma das duas tenha filhos, ambas mencionam mulheres com quem já conviveram na prostituição, cujas trajetórias são atravessadas pela responsabilidade de sustentar e cuidar de seus filhos sozinhas, muitas vezes em situações de abandono pelos parceiros. Nesse cenário, a prostituição se apresenta, para muitas, como uma alternativa imediata de sobrevivência.
Essas histórias, ainda que permeadas por precariedade e estigmas, revelam tensões importantes entre trabalho, gênero e classe social e, sobretudo, a potência de mulheres que, diante de tantas ausências, constroem caminhos possíveis para si.
NS | Rede Oblata: Que papel as iniciativas como o Projeto Antonia – Rede Oblata SP – podem ter no fortalecimento dessas estratégias de cuidado, autoconsciência e protagonismo?
Fernanda Picinin: Iniciativas como o Projeto Antonia têm um papel fundamental no fortalecimento das estratégias de cuidado, autoconsciência e protagonismo das mulheres que estão no contexto da prostituição. E isso se dá, sobretudo, quando partem do princípio do acolhimento sem julgamento, respeitando as histórias, escolhas e condições concretas de vida dessas mulheres.
O Projeto Antonia, por exemplo, atua criando espaços de escuta qualificada, troca e fortalecimento de vínculos, que contribuem para que essas mulheres possam olhar para si com menos culpa e mais dignidade. É nesse espaço que muitas delas conseguem, pela primeira vez, falar sobre suas dores, seus desejos e suas estratégias de sobrevivência sem medo de serem silenciadas ou deslegitimadas. Isso, por si só, já é profundamente transformador.
Essas iniciativas também podem colaborar para a construção de autoconsciência crítica, oferecendo informações sobre direitos, ampliando o acesso às políticas públicas e problematizando as desigualdades estruturais, sem impor caminhos, mas fortalecendo a capacidade de decisão de cada mulher sobre sua própria vida.
Além disso, ao favorecer a convivência e a solidariedade entre mulheres, projetos como da Rede Oblata ajudam a romper o isolamento e o estigma, abrindo espaço para que o cuidado deixe de ser apenas uma responsabilidade individual e passe a ser construído de forma coletiva. A construção do protagonismo nasce justamente desse lugar: onde o apoio mútuo, o conhecimento e o reconhecimento de si como sujeito de direitos se tornam possíveis.
Vejo que o grande desafio de projetos como o Projeto Antonia é atuar no entrelaçamento entre o cuidado e a crítica, sem cair em salvacionismos, e entendendo que o protagonismo não se dá apesar das vulnerabilidades. Nesse sentido, essas iniciativas não apenas acompanham trajetórias, mas se tornam parte da luta por uma sociedade mais justa, plural e menos violenta para as mulheres.

Sobre Fernanda Picinin
Psicóloga pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora CES/JF (2008) e Assistente Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora UFJF (2009). Mestre em Psicologia pela UFJF (2014) e doutora em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo PUC-SP (2025), vinculada ao Núcleo de Estudos e Pesquisa em Ética e Direitos Humanos (NEPEDH-PUC/SP). Pesquisa temas relacionados a feminismos, trabalho, exploração e prostituição. Foi Assistente Social entre os anos de 2017 e 2019 no Projeto Antonia, unidade da Rede Oblata em São Paulo. Atualmente é professora substituta do curso de Serviço Social da UFJF.
Confira o resumo da tese
MOREIRA, Fernanda Picinin. Trabalho sexual e exploração de mulheres de baixa renda na sociedade hetero-patriarcal-racista capitalista. 2025. 1 v. Tese (Doutorado) – Curso de Serviço Social, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2025.
A presente tese teve como proposta analisar como a exploração relacionada ao trabalho produtivo e reprodutivo da mulher na sociedade hetero-patriarcal-racista capitalista contemporânea produz e intensifica a exploração do trabalho da mulher na prostituição. Para atingir esse objetivo, buscamos discutir sobre como o trabalho reprodutivo pode estar relacionado com a inserção precarizada e desigual das mulheres no mercado de trabalho, assim como vem a ser funcional para a continuidade e reprodução do modo de produção capitalista. Assim entendemos como o trabalho sexual no contexto da prostituição, se instala como atividade produtiva na sociedade capitalista contemporânea, passando a ser uma opção laborativa para mulheres de baixa renda. Assim como, problematizamos a necessidade de discussão da prostituição no âmbito do direito social, sexual e trabalhista. Para isso utilizamos de metodologia qualitativa, a partir da entrevista com duas trabalhadoras sexuais que estavam abertas para falar sobre suas experiências suas memórias sobre si mesmas enquanto trabalhadoras, do contexto da prostituição, do trabalho e seus afetos, considerando ser importante também ressaltar que a escuta das mulheres trabalhadoras sexuais viabilizou lançar luz a vozes femininas tantas vezes subalternizadas.
Para acessar o trabalho completo, faça o download.
*Ao compartilhar, não modifique o conteúdo e sempre dê os créditos e referências.