Por Isabel Brandão – Psicóloga do Projeto Oblata Diálogos pela Liberdade – Brasil
Na Madri do século XIX, em uma sociedade marcada pelo preconceito, pelo patriarcado e pela exclusão, mulheres em contexto de prostituição e com doenças sexualmente transmissíveis eram internadas no porão do Hospital São João de Deus, referência no tratamento de enfermidades infectocontagiosas. Ao receberem alta, sem alternativas reais de reintegração, retornavam às ruas e ao mesmo ciclo de dor e abandono.
Diante dessa realidade tão dura, Padre Serra percebeu a urgência de criar um espaço de acolhida. Amigo e confessor de Antonia, encontrou nela a educadora e cuidadora ideal para ajudá-lo a abrir as portas que a sociedade insistia em fechar. Inicialmente, em 1864, na cidade de Ciempozuelos, os dois amigos alugam uma pequena casa. Posteriormente, com recursos vindos de doações, adquiriram um antigo convento, o Asilo Nossa Senhora do Bom Conselho, hoje conhecido como Casa Mãe.
Visitar a Casa Mãe é como fazer uma viagem no tempo
O pequeno quarto de Antonia revela a essência de sua vida: a simplicidade, a delicadeza e a dedicação ao seu propósito. Nele, vemos uma cama modesta, curta para seus 1,80m de altura, e um caixote improvisado como armário, cuidadosamente forrado com veludo reaproveitado das roupas que usava em seus tempos de palácio. Sobre a mesa, repousa ainda a fatia de pão que sobrou de sua última refeição, sinal silencioso de sua frugalidade. Mas o que mais impressiona os visitantes é a estante com frascos e materiais para a preparação de fórmulas naturais. É emocionante constatar que Antonia era uma profunda conhecedora das ervas medicinais. Saber que aplicava esse conhecimento tanto no cuidado com suas “chicas” quanto no auxílio aos mais pobres da cidade enche de admiração os visitantes. (Crónica del Asilo, 1864, p. 18)


Seu apreço pelas terapias naturais aparece também em uma carta escrita durante uma visita à cidade litorânea de Trillo, em agosto de 1872:
“Começamos hoje a tomar as águas: amanhã serão os banhos... Estes montes estão cheios de sálvia, alecrim e zimbro; também há muita alfazema e vamos fazer almofadinhas de cheiro; depois vocês as bordarão. Também estamos colhendo todas essas ervas para quando forem necessárias...” (Origens da Congregação, 1998 – 1ª edição, p. 409)

A vida de Antonia foi um gesto contínuo de amor e ternura. Como mãe e mestra, ela praticava a pedagogia do «pouco a pouco», respeitando o tempo de cada mulher acolhida, compartilhando a sua própria vida. Como se lê em uma citação: «Com Rosa, você preparou a mesa para comer as quatro: Berta, Josefa, Rosa e você» (Balugera Inmaculada Ruiz de, Recuerdos, Editorial Perpetuo Socorro, 2021, p. 20).
Incrível como, mesmo após dois séculos e com pouco conhecimento desse aspecto da vida de Antonia, ainda hoje seguimos seus passos. Nos Projetos Oblatas do Brasil, utilizamos as Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) no cuidado com as mulheres, uma abordagem que, intuitivamente, já fazia parte da pedagogia do cuidado de Antonia.
Em 2013, na Unidade Diálogos Pela Liberdade – Rede Oblata BH, a experiência de um voluntário com a auriculoterapia nos encantou. A técnica simples e de grande eficácia logo despertou nosso interesse, e buscamos formação para incorporá-la aos atendimentos.

Um depoimento forte e comovente de uma de nossas assistidas traduz os desafios vividos por quem está no exercício da prostituição:
“Será que as ‘moças de família’ conseguem imaginar como é a vida de uma garota de programa? Falam que somos mulheres de vida fácil. Vida fácil? Todo mundo pensa que um prostíbulo não tem regras; não é bem assim. A rotina diária de mais de doze horas atendendo até 30 homens, não conta? Ter que pagar diariamente R$150,00 por um quarto sem conforto nenhum, não conta? Suportar homens de todo jeito, com todos os odores e fantasias por R$20,00, não conta? ‘Aquele lugar’ é de onde tiro meu dinheiro para sobreviver. Tenho dois filhos pra criar, sou só, não tenho apoio de ninguém. Consegui me adaptar com tudo e com todos. O seu preconceito e o seu olhar de nojo me ferem mais do que a atividade que exerço.”
A prática mostrou que, por meio dessas terapias, é possível oferecer respostas mais humanas e eficazes. Mulheres relatam diminuição de sintomas como insônia, ansiedade, depressão e dores corporais, além da redução no uso de medicamentos. Isso nos animou a expandir as experiências para outras unidades da Rede Oblata Brasil e buscar novas parcerias para oferecer acupuntura, ventosas, florais e outras Práticas Complementares de Saúde – PICS.
A partir da nossa experiência constatamos que, as Práticas Integrativas e Complementares em Saúde, por terem uma abordagem sensível, ética e integral do ser humano dialogam de forma natural com a pedagogia oblata do cuidado.
Entendemos que nenhuma técnica substitui o cuidado humano. Por isso, seguimos colocando no centro a escuta e o vínculo, caminhos que despertam cada mulher para sua própria força de cura. Como elas mesmas dizem:
“Desde que comecei o uso dos florais tenho percebido vários benefícios: mais calma, diminuição das crises de ansiedade e mais concentração e alegria de viver.”
“Eu sofro de ansiedade, estava com muita falta de ar, insônia, tremedeira, intestino solto, várias questões de que o aurículo e a acupuntura têm me ajudado muito. Eu aprendi que não preciso me entupir de remédio o tempo todo. Posso recorrer a isso, que realmente faz efeito. Sou muito grata e é uma prática que quero levar para o resto da minha vida.”
A Família Oblata cresceu! Hoje estamos em 16 países, com 40 unidades. Seguimos fiéis ao nosso carisma , herdado de nossos fundadores – Serra e Antonia, pois acreditamos que é possível oferecer melhores oportunidades de vida às mulheres que exercem a prostituição e vulnerabilidade.

Publicação Oblata – 2023