Para a Rede Oblata Brasil, o Relatório Anual de 2025 é um gesto de transparência, um exercício de memória e um convite urgente à sociedade. Ele reúne dados, histórias e aprendizados de um ano inteiro de presença ao lado de mulheres em contextos de prostituição e vulnerabilidade social. Mais do que números, este documento revela encontros, parcerias e traduz em evidências o que a Família Oblata vive cotidianamente: a fé que se faz caminho, escuta e defesa intransigente da dignidade humana das mulheres.

Vivemos um tempo de desigualdade profunda. A feminização da pobreza avança, empurrando milhões de mulheres para a insegurança econômica, a fome e a violência. Os índices de violência de gênero no Brasil permanecem alarmantes, e o estigma que recai sobre mulheres que exercem a prostituição as mantém invisíveis para grande parte das políticas públicas. Neste cenário, a Rede Oblata reafirma o que sempre sustentou: não basta apontar o problema, é preciso ir ao encontro. É preciso estar onde a vida dói, onde as injustiças são a realidade que precisa ser transformada.

Um olhar que vê além das estruturas

A missão das Oblatas nasce de uma certeza evangélica: Jesus, nosso Redentor, não esperou que os necessitados viessem até ele. Ele saiu ao encontro, caminhou entre os mais pobres e vulneráveis, estendeu a mão e lutou contra as injustiças.

Essa mesma lógica conduz as equipes dos projetos de missão das Oblatas do Santíssimo Redentor a ruas, bares, hotéis e becos de três capitais brasileiras: Juazeiro (BA), São Paulo (SP) e Belo Horizonte (MG). É lá que se encontram mulheres marcadas por pobreza, baixa escolaridade, com responsabilidade familiar e um histórico recorrente de violência doméstica e sexual. A maioria delas é negra ou parda. Em sua maioria, são chefes de família e dependem da renda da prostituição para garantir a subsistência dos filhos e a busca por melhores condições de vida.

Olhar para essas mulheres com seriedade exige que denunciemos as engrenagens de uma sociedade patriarcal que as empurra para as margens e depois as culpa por estarem lá. Nosso trabalho, portanto, não é prioritariamente assistencial, é estrutural e profético. 

Abordagem social: o primeiro gesto de cuidado

Em 2025, as equipes dos Projetos Oblatas realizaram 739 visitas de abordagem social em 69 locais de prostituição. Esses espaços incluem 4 vias públicas, 23 locais de comércio e convivência e 42 espaços específicos de prostituição. Foram 3.580 mulheres alcançadas diretamente nos territórios: 1.358 em Juazeiro, 373 em São Paulo e 1.849 em Belo Horizonte.

Cada visita é um gesto de aproximação que não impõe, não julga e não promete o que não pode cumprir. A abordagem social é o fio que começa a tecer um vínculo, é o primeiro passo para que uma mulher saiba que existe um lugar onde pode ser ouvida sem medo, encaminhada a serviços da rede socioassistencial, ter suporte psicológico e um atendimento humanizado. 

Acolhida e atendimentos: o coração da missão

A acolhida é o pilar central do trabalho. Em 2025, foram 7.771 atendimentos totais, distribuídos entre acolhidas presenciais e virtuais (4.528), atendimentos individualizados (2.730), ações de saúde (356) e atividades coletivas (157).

Esses números mostram que o cuidado não é pontual, é contínuo. Uma mulher que chega pela primeira vez pode, ao longo dos meses, construir um plano de atendimento que envolva escuta psicológica, orientação social, acesso a documentos, encaminhamento para a rede de saúde e, em muitos casos, apoio para romper ciclos de violência.

Os atendimentos especializados somaram 1.916 em 2025: 619 acompanhamentos psicológicos, 778 atendimentos sociais, 36 visitas domiciliares e 483 encaminhamentos e acompanhamentos para a rede socioassistencial e de saúde pública. Esse fluxo de articulação com o Sistema Único de Saúde (SUS) e com a rede de assistência social (SUAS) é fundamental para que as mulheres tenham acesso a direitos que, sozinhas, dificilmente alcançariam.

Práticas integrativas: o cuidado que restaura o corpo e a alma

A Rede Oblata entende que o sofrimento também é psíquico, emocional e espiritual. Por isso, oferece Práticas Integrativas e Complementares como parte da pedagogia do cuidado. Em 2025, foram 494 atendimentos para 77 mulheres, com técnicas como auriculoterapia, ventosa, acupuntura, massagem e reiki.

Essas práticas não substituem o atendimento médico ou psicológico, mas complementam. Elas oferecem um espaço de acolhimento do corpo, que muitas vezes foi violentado, explorado e silenciado. Cuidar do corpo é também cuidar da história que ele carrega.

Articulação e parcerias: a força do trabalho em rede

Nenhuma transformação duradoura acontece de forma isolada. A Rede Oblata atua em estreita articulação com conselhos municipais de direitos da mulher, assistência social e segurança alimentar em Belo Horizonte, Juazeiro e São Paulo. Essa incidência política é uma forma de levar para o espaço público as demandas que emergem do encontro com as mulheres nos territórios.

Um exemplo concreto da potência das parcerias é a colaboração com o Programa Mesa Brasil (SESC). A unidade de Juazeiro recebeu 5.154 toneladas de alimentos, beneficiando diretamente as mulheres no enfrentamento da insegurança alimentar. Foram gerados 357 atendimentos socioeducativos, que combinam o acesso ao alimento com informações sobre direitos, saúde e cidadania.

Essa parceria mostra que a sociedade civil organizada pode e deve ocupar um lugar central na garantia de direitos. Quando o Estado chega com lentidão, as Oblatas e seus parceiros estão na linha de frente, segurando pontes e abrindo caminhos.

Se todas as portas se fecham

Durante 2025, o filme «Se todas as portas se fecham» foi lançado no Brasil. Inspirado em histórias reais de coragem, fé e transformação, o filme resgata a vida de Antonia María de Oviedo, fundadora da Congregação, e conecta sua trajetória a de duas outras mulheres, Sharik e Rebeca, separadas no tempo, mas unidas pela busca por dignidade e sentido. Os temas caminham pela vocação, pela acolhida e desafios do Ser mulher, os contextos de exploração do tráfico de mulheres, a educação como libertação, dentre outros que tocam a alma e fazem refletir.

2026: compromisso que se renova

A equipe multidisciplinar da Rede Oblata Brasil reafirma seu compromisso com a justiça social, a autonomia e a dignidade das mulheres. Não se trata de uma promessa vazia, e sim de um plano de ação que reconhece os avanços, mas também os desafios que persistem.

Entre os desafios estão a necessidade de fortalecer a rede de atendimento em saúde mental, ampliar as oportunidades de geração de renda para as mulheres e continuar pressionando por políticas públicas que enfrentem as raízes da exploração e violência.

A instituição convida cada pessoa que ler este relatório a fazer parte dessa caminhada. Conhecer os dados é o primeiro passo. O segundo é se perguntar: o que eu posso fazer para que mais mulheres tenham acesso a direitos, cuidado e esperança?

O Relatório Anual de 2025 da Rede Oblata Brasil já está disponível para leitura e DOWNLOAD.

A Rede Oblata Brasil é a articulação dos projetos sociais da Congregação das Irmãs Oblatas do Santíssimo Redentor no Brasil.  Para apoiar os projetos, entre em contato via [email protected]. Sua contribuição, seja por meio de doação, voluntariado ou divulgação, fortalece esta rede de cuidado.


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